Amplificadores
Amplificadores são animais que
reagem de uma maneira completamente diferente do que guitarras. São
de uma espécie mais lenta, pesada...
Enfim por mais perfeitos que sejam, nunca satisfazem por completo.
É sempre a mesma coisa, o som limpo do Fender, o crunch do
Marshall, o brilho de um Vox, o punch de um Hiwatt. Para se gravar
um único disco, às vezes eu tive de usar cinco ou seis
modelos para poder cobrir toda a gama de timbres que meus ouvidos
pediam!
Meu primeiro amplificador foi
um Gianninni BAG 1 de 20 watts e transistorizado. Cumpriu sua função:
Fazia barulho e incomodava os vizinhos.
As primeiras pessoas que tocaram comigo numa banda foram o Paulo Zinner
e o Nelson Brito. Ambos vieram a ficar conhecidos nacionalmente através
da banda Golpe de Estado. Hard Rock puro tocado sempre muito alto.
Pois é... O gene do volume estava incubado nos dois desde muito
cedo, especialmente no Paulo... Para resolver esse problema troquei
meu BAG 1 por um Gianninni Duovox de 120 watts com uma caixa com 6
alto falantes de 12 polegadas (6X12”). Esse trambolho não
saia do meu quarto de som, era intransportável, vendi esse
elefante para a pianista Eliane Elias que era minha amiga da escola
de música do Zimbo Trio, o CLAM. Comprei outro Duovox, um com
100 watts e 2X12”

Duovox |
O timbre era muito duro, não distorcia nem por decreto que acabei
vendendo e pondo fim à mania de ter amplificador grande. Sai
de um mundo para outro... Depois dos dois Duovox, eu tive um Phelpa
de 6 watts à válvula que tinha um timbrezinho honesto
mas não dava para usar quando Zinner tocava bateria. Mas foi
com ele que eu sobrevivi até ir estudar no GIT em Los Angeles.
Lá eu passei por um upgrade que foi coisa de primeiro mundo.
Dois dias depois da minha chegada, comprei um Mesa Boogie Mark I,
Mark I |
blonde tolex, 60 watts de potência
e um alto falante Altec de 15”. Um baita som de blues!!! No final
do curso eu me invoquei com o tamanho e peso dele e o troquei por outro
Boogie dessa vez um Mark II, black tolex, também 60 watts, só
que dessa vez com o falante da moda: um Electro Voice de 12”.
Para completar um case da
Anvil para agüentar o tranco! Fiquei com esse modelo até
voltar da Inglaterra em Dezembro de 1984. Em Londres eu comprei um Fender
DeLuxe Black Face de 1962 - número de série A 00679. Quando
pedi para o Peter Cornish
De Luxe |
trocar as válvulas e fazer
um check up do aparelho ele levantou a suspeita de ter concertado esse
mesmo DeLuxe para o Peter Green nos últimos dias do Fleetwood
Mac. Nunca obtive confirmação dessa informação.
Usei esse amp em todas as faixas do disco Kid Vinil e os Heróis
do Brasil e do Mandinga. que no Mandinga eu o usei acoplado a uma caixa
Boogie de 4X12” com falantes Electro Voice e para encorpar ainda
mais o meu som usei um cabeçote Fender Bassman, também
Black Face, em outra caixa Boogie de 4X12”. O Bassman era do Estúdio
Eldorado, as caixas foram emprestadas pelo Roberto de Carvalho.
Em 1987 eu vendi esse DeLuxe para comprar um dos primeiros amplificadores
de boutique que hoje assolam o mercado. Era um Jim Kelly de 60 watts,
grey tolex, com um power attenuator que permitia um som de saturação
lindíssimo. Fui influenciado pelo timbre do Bill Conors e do
Robben Ford, uma vez que ambos usavam o mesmo modelo. No dia em que
eu estava comprando esse amp, o Lou Reed entrou na loja (Rudy´s
em Nova York) e comprou um Jim Kelly vermelho igual ao meu. O Rudy nos
apresentou e lhe dei um disco dos Heróis e ganhei uma cópia
do Mistrial autografada por ele.
O problema é que o Jim Kelly tinha um ótimo som de lead
mas não tinha o punch que eu precisava para tocar ao lado dos
Mesa Boogies do Roberto nos ensaios para a tour do lp Flerte Fatal da
Rita Lee. Eu tinha gravado com ele umas faixas no disco, Para Com Isso
é a única que ficou, as outras acabaram sendo cortadas
na mixagem final. Mas nos ensaios, não estava rolando. No fim
das contas eu saí da banda por não achar meu espaço
dentro dela. Vendi o Jim Kelly e re-comprei o DeLuxe. Amplificadores
de boutique não funcionam com o meu jeito de tocar...
Em busca de mais volume, o Paulo Zinner tinha voltado para a banda,
eu fui atrás de um Fender mais potente, o Fontanetti tinha trazido
um Super de 1964, Black Face, que tinha um timbre perfeito. Em fevereiro
de 1989 fui para Florida e comprei um Fender Super 1965, de um amigo
do Ed Oleck, Craig Brody da Guitar Broker em Forth Lauderdale. O amplificador
parecia ter saído da caixa. Mas o som não era tão
bom quanto o do Fonta. Quis o destino que ele tivesse que vender o Super
dele para dar a grana para o nosso saudoso irmãozinho Luiz Tjurs
comprar um Marshall antigo na Inglaterra e nós fizemos uma gambiarra
muito feia... Montamos os dois amps em um! Tiramos o cabeçote
e os falantes do dele e colocamos no corpo do meu. Ficou perfeito. Timbre
e visual, imaculado!!!

Super Reverb |
Gravei o A Touch of Glass inteiro
com ele, mas como no Mandinga, usamos mais um set para ter variação
nos timbres, ele era composto por um Marshall JTM 45, de 1965, com
50 watts – número de série 1205 ligado numa uma
caixa Orange de 100 watts com 4X12”. Uma ignorância!!!
Acabei convencendo o Fontanetti a vender o Marshall para mim. Grande
erro!
Apesar de ter um timbre celestial, esse amplificador ficou mais tempo
no reparo do que no palco. Tentei o Hélcio Aguirra, que além
de ser o guitarrista do Golpe de Estado, sempre fez
Orange 4X12" |
manutenção e modificação
de Marshalls, não funcionou, levei para o Harry Kolbe em Nova
York, nada feito. Tentei de tudo, só faltou fazer um despacho
nas encruzas para ele parar de dar problema. Eu usava esse amp com duas
configurações de auto falantes, primeiro com um par de
caixas desenhadas pelo Harry Kolbe, cada uma com um Eletro Voice de
1X12” e 150 watts de potência, e mais tarde com uma caixa
Marshall (reta) com quatro falantes Celestions de 12” originais,
que eu troquei com meu comparsa curitibano Carlão Gaertner, baixista
dos Bartenders! Após tanto esforço,

Fender Super e Marshal JTM45 com caixa 4X12" |
eu
ainda consegui usa-lo nas gravações do cd do Fickle Pickle,
mas foi só. Em janeiro de 1996, num acesso de fúria levei
o desgraçado para Nova York e dei de presente para o Rudy.
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