Deus e Eu

Era uma quarta feira de verão, começo de agosto, e numa conversa rápida com Patrick Hicks – fundador e dono do GIT – comentei que iria ver o B.B. King no Golden Bear, em Huntington Beach, na noite seguinte. Ele me provocou dizendo: - “Traga seu amigo pra fazer um workshop na escola e eu lhe dou meu convite para assistir ao Andrés Segovia no Teatro USC no sábado...” - “No problem!”... - eu disse. “Escreva uma carta oficializando o convite e eu levo pro B.B.”! E assim foi feito. Na manhã da sexta feira eu estava no seu escritório com o cartão do B.B. e o telefone do hotel onde ele estava hospedado. A partir desse contato, iniciou-se a parceria entre B.B. King e o Musician Institute, que culminou com a criação de uma bolsa de estudos em seu nome.
Pat, cumprindo sua promessa, me deu o convite e com ele uma “pequena incumbência”: representar a escola - uma das patrocinadoras do evento - no jantar que seria oferecido ao Maestro após o recital.
E eu fui. Coloquei minha única calça social - uma Levi´s cor de areia - e uma camisa de gola, suéter escuro e, pasmem, sapatos! Casual mas chique... E fui ver a lenda de perto!
O show nem havia começado e eu já experimentava três surpresas inesquecíveis. A primeira foi logo ao chegar; o evento era de gala, ou seja, black tie... A segunda foi saber que meu lugar era na quarta fileira, bem no centro, menos de 30 passos do Maestro. A terceira foi a mais absurda... Ao meu lado, uma única poltrona vazia em todo o teatro. Eis que chegou o seu proprietário, um magrelo de jeans, meio afobado, que ao me ver ali fez um único comentário...- “Thanks God you are here!”, num sotaque britânico indefectível... Como eu não o conhecia, presumi que sua alegria se dava pelo fato de que juntos fazíamos um belo par de criaturas mal ajambradas, cercadas por um desfile interminável de estolas de peles e fraques fedendo a naftalina... O rosto era familiar e aquele sotaque... Só podia ser...- “Excuse me. Are you Albert Lee?”, perguntei. “Yes. and you are…?” “Christovam… André Christovam, from Brazil...” respondi. – “I´m so happy to see you here…” disse ele, apontando para a camisa jeans que estava usando. Caímos na gargalhada. O show foi um deslumbre e ao seu término convidei o Albert para ir comigo ao jantar... Ou pelo menos cumprimentar o Maestro pela performance brilhante e sumir dali o mais rápido possível... Fomos, e ao chegar na área do banquete percebi que meu cartão de patrocinador me dava privilégios sobre humanos, incluindo o de sentar ao lado do homenageado por alguns instantes. Albert o cumprimentou logo após um casal bastante idoso. Sem respostas, apenas um grunhido típico de quem está com 88 anos de idade e de saco cheio... Ao me aproximar, resolvi usar uma tática diferente – falar em espanhol! Deu certo. Ele foi super atencioso, assinou três programas, um para o Pat, um para meu primeiro professor de violão, Antero Martins e um terceiro para mim. Uma garota que cobria o evento para a Universidade fez duas fotos. Antes de sair, pedi seu telefone e disse que pagaria o que ela quisesse por uma cópia daquelas fotos. Uma é essa, a outra queimou!!! Na segunda feira levei o programa autografado para o Pat e, junto, um cartão com o telefone de um amigo inglês que eu tinha conhecido no recital: Albert Lee... É mentira Terta?

 


Ensurdecendo a Vizinhança -
SESC Pompéia 25.01.96

Luiz Carlini foi o primeiro guitarrista que eu vi tocar ao vivo.
Sendo assim, a Les Paul Gold Top dele foi a primeira guitarra que eu ouvi ao vivo... Foi no Show “Atrás do Porto Tem Uma Cidade” da Rita Lee e o Tutti Frutti. Naquela noite, no Teatro Bandeirantes, ruíram todas as esperanças que meu pai nutria em ter um violonista erudito na família...
Ter virado vizinho dele, cinco anos depois, não ajudou muito...
A gente tocava tão alto, que fazíamos um duelo de Les Pauls, sem que cada um saísse de sua casa!

 


Coco Montoya e André - Curitiba - Natu Blues  2002

Conheci o Coco no elevador do Hotel Nacional do Rio de Janeiro.
Era véspera do nosso show no Free Jazz Festival – agosto de 1989 –.
Ele estava no Brasil pela primeira vez com o Bluesbrakers de John Mayall e tinha a incumbência de me encontrar, uma exigência de sua esposa (na época...) Debbie Davis, guitarrista do Icebrakers, que já era minha comadre... Debbie e eu tínhamos tocado juntos em Ribeirão e em Dallas, poucos meses antes... Minha principal função era conseguir um estoque de Guaraná em lata para ele levar para a casa deles em Los Angeles, uma vez que as duas dúzias que eu levei para ela em Dallas não duraram mais que três dias!
A sensação que eu tive foi de ter reencontrado meu primo distante... Nossa ligação por causa do Albert e da Debbie já era grande... Quando nos juntamos foi uma palhaçada sem fim.. Piadas e estórias, uma mais absurda do que a outra... Voltamos a nos encontrar no Nescafé Festival, em São Paulo, 1994 creio eu; ele tinha saído do grupo do John Mayall e estava começando uma carreira solo!
Quando assumi a direção artística do Natu Blues, Coco foi uma das minhas primeiras sugestões. Sua carreira vem caminhando de vento em popa e nesses últimos anos ele havia gravado uma seqüência de cds excelentes... Ótima desculpa para nos reunirmos outra vez e deixarmos as guitarras porem a conversa em dia. Essa foto foi tirada na última noite do festival, em Curitiba. Para os “gearheads”: A Strato azul que ele está usando foi construída por um amigo em comum, Toru Nittono, grande luthier californiano!

 

 


Buddy Guy – O Último Samurai

Minha relação com Buddy Guy é a de mestre e discípulo.
Nos conhecemos em 1985, em sua primeira temporada no Brasil. Por três semanas Buddy e Junior Wells detonaram o extinto Clube 150, no Maksoud Plaza, aqui em São Paulo. Como o preço do ingresso era muito alto, propus ao produtor do clube - o Zé Nogueira - uma permuta: eu emprestaria o meu amplificador Mesa Boogie, e ele me deixaria assistir aos shows na faixa! Deu tão certo, que acabei virando tradutor deles além de iniciarmos ali uma amizade que perdura até hoje.
Eu o vi tocar inúmeras vezes e, em algumas delas, subi no palco com ele. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos. É sempre um privilégio... Essa foto foi tirada no antigo Palace, hoje DirecTV Hall, após estarmos duas noites no Rio de Janeiro. Naquela noite, na volta para o “bis”, ele preparou uma surpresa para a platéia. Com as cortinas fechadas ele pediu para que eu entrasse no seu lugar e liderasse a banda. “Go out there and do me!” E lá fui eu, fazendo uma imitação do Buddy Guy a pedido do próprio... Quando as cortinas se abriram a galera não entendeu nada! E ele entrou pouco depois, bem devagar, dando um imenso sorriso!!! Tocamos Statesboro Blues, Mary Had A Little Lamb e, para encerrar a noite, The Thrill Is Gone do B.B. King. Ele se sentou na beirada do palco, sem a guitarra, escolheu uma garota na primeira fila e de mãos dadas começou a cantar pra ela... O maior chaveco... Na hora do solo ele chamou seu guitarrista, o Scott Holt, e o garotão mandou ver... Bela performance! Em seguida ele virou pra mim, ainda de mãos dadas e falou: “André... Play the blues for me...” E eu toquei… Toquei como se as portas do céu tivessem se aberto e uma luz divina me inspirasse! Foi sem dúvida o melhor solo que eu toquei na minha vida... Quando terminei e abri os olhos, pronto para passar a bola, um susto! Buddy com sua Guild do meu lado com um sorriso malévolo! Meus amigos... O que o homem tocou foi um absurdo! Eu nunca vi! A primeira nota foi um “bend” na 1ª corda mi, que encostou-se à última corda, o mizão! Um assombro! Não tem aquela nota na minha guitarra! Senti-me atingido por um golpe de “katana” desferido pelo supremo samurai Itto Ogami! Meu corpo caiu rachado ao meio! Fim de show, e no camarim, recebi muitos abraços do pessoal da banda... O seu baixista Greg Rzab (hoje no Black Crows) me dizia : “É isso aí... Se não chutar a bunda dele, ele enrola, enrola e não mostra o que sabe! Parabéns... Belo solo!” O Scott foi mais direto... “Cara, você nos pegou nessa noite! Enquanto você solava, o Buddy arregalou os olhos, largou a mulher na beirada do palco e pegou a guitarra dele... A primeira nota foi um ”Elephant Bend“... Eu só o vi usar esse truque com o Jeff Beck e o Eric Clapton! É o maior elogiu que você poderia receber! Agora... Fique esperto, amanhã eu te dou o troco...”

 

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